01 novembro 2009

Carimbos Datados (tipo 1880): POMARÃO



Pomarão (13.06.1904) -> Mértola (13.06) -> South Shields

Santana de Cambas / Mértola / Beja
 

O carimbo circular datado (tipo 1880) do Pomarão é considerado escasso sobre selos soltos do período monárquico e, obviamente, ainda mais sobre suporte postal circulado. O grau de raridade 10 (escala de 1 a 10) atribuído por David Gordon na obra específica sobre a família destes carimbos[1] dimana da colecção pessoal e de muitos anos de pesquisa. Porém, esta tarefa é dificílima e falível: basta encontrarmos meia dúzia de cartas e selos num arquivo comercial ou concentradas em colecções de filatelistas ou marcofilistas para se alterarem os dados. Será, quiçá, o caso do c.c.d.1880 da estação telégrafo-postal do Pomarão, embora se mantenha a elevada dificuldade em o encontrar, quer em peça quer em exemplares soltos.



Pomarão (01.12.1906) -> Mértola (01.12) -> Freiberg in Sachsen (06.12)


Eis o quadro-resumo com os dados do fluxo postal verificado em 1904 nas estações do distrito de Beja, concelho de Mértola.[2]



A 3a Reforma Postal ocorrida em 1880 trouxe consigo a amalgamação das Direcções de Correio, do Telégrafo e Faróis numa única Direcção Geral. Confiou "ao cargo" de Municípios 51 estações postais e, a de Pomarão, a uma empresa particular.[3] Até à data, desconheço os motivos e quais os contornos dos acordos celebrados mas, no Pomarão, muito provavelmente, se deveu à necessidade de flexibilização do horário de funcionamento do serviço telegráfico. 
 
Pomarão (30.11.1903) -> Lisboa (02.12) -> Londres (05.12) -> Hartlepool (05.12)


Eis uma breve descrição da povoação, nos alvores do século XX. [4]

 

Com efeito, a actividade económica gerada pelo complexo mineiro da Mina de S. Domingos, a construção do troço ferroviário e o seu porto fluvial contribuíram em muito para o aumento do tráfego postal.
"A linha do caminho-de-ferro que ligava a Mina de S. Domingos ao Pomarão, foi a primeira linha de carácter privado construída em Portugal. A sua construção inicia-se em 1859, quando a Mason and Barry limited, empresa proprietária [sediada em Londres], introduz a linha de caminho-de-ferro por via estreita com recurso a muares, ligando a Mina de S. Domingos ao porto fluvial do Pomarão, numa distância aproximada de 18 quilómetros de extensão. No ano de 1861 são utilizados no transporte do minério entre 1500 a 2000 animais. Contudo, bem depressa a utilização de animais é substituída pelo recurso a locomotivas. A primeira locomotiva, de nome Estiphania, muito provavelmente desenhada por James Mason, inicia a sua actividade em 1864. Logo nesse ano, atracam no porto do Pomarão 563 navios de carga, um número que até final dos anos oitenta do século XIX será continuamente aumentado. Pode dizer-se que é com o início do funcionamento do caminho-de-ferro que o complexo mineiro de S. Domingos se impõe nos mercados internacionais. A nível local, a entrada em funcionamento das locomotivas provoca um aumento gigantesco de desempregados, principalmente almocreves e seareiros, que fretavam os seus animais no transporte do minério. Seguiram-se alguns momentos de revolta, habitualmente provocados pela obstrução da via-férrea com grandes objectos. Mas a reanimação dos mercados do cobre, em finais da década de sessenta do século XIX, e o início da exploração a céu aberto (1867), permite à empresa absorver grande parte dessa mão-de-obra e diminuir a revolta das gentes locais. A partir daqui, o complexo mineiro de S. Domingos torna-se no mais importante empregador de toda a região e transforma inexoravelmente o tecido socioeconómico da região, a estrutura urbana e a lógica de desenvolvimento do concelho. Toda a lógica de funcionamento do caminho-de-ferro assenta na preocupação em escoar melhor e mais rapidamente o minério, assim como a melhoria da mobilidade e máxima rentabilização de esforços no interior do complexo mineiro. O transporte da matéria-prima na origem para a trituração e, posteriormente, para a transformação nas fábricas de enxofre ou na sua exportação, estruturaram o seu funcionamento e a tipologia de infra-estruturas que lhe estão associadas. Ao longo do seu percurso são criadas as oficinas e as áreas de abastecimento, de água, carvão e gasóleo; as estações da Mina de S. Domingos, da Moitinha, da Achada do Gamo, do Telheiro, de Santana de Cambas, dos Bens, dos Salgueiros e do Pomarão. São construídos cerca de quatro quilómetro de túneis, taludes de assentamento, várias dezenas de pequenos pontões e aquedutos. Desactivada em 1968, a linha do caminho-de-ferro é desmantelada parafuso a parafuso, solipa a solipa, carril a carril, para dar lugar a mais meia dúzia de tostões dos responsáveis pela inundação e destruição irreparável de um dos mais importantes investimentos que até hoje se fizeram nesta região."[5] 



Fontes:
[1] GORDON, David Leslie. Circular Datestamps of Portugal. 1880-1912. UK: Portuguese Philatelic Society, 1987.
[2] Estatistica geral dos correios Anno de 1904 (1906). Lisboa: Direcção Geral dos Correios e Telegraphos, Imprensa Nacional

[3] PEREIRA, Pedro Marçal Vaz. Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos. Vol. I. Madrid: FAFF, 2005.
[4] AZEVEDO, Francisco Cardoso de, Novo Diccionário Chorographico de Portugal Continental e Insular (4ª Edição), 1906.
[5] REGO, Miguel, arqueólogo; Fórum: www.comboios.org



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