25 fevereiro 2012

Travessia Aérea do Atlântico (3)



CE 269 
(bloco de 20 selos) 

No post anterior, face à extraordinária franquia, ficou implícita a suspeita de peça filatélica ou mesmo falsificada. Embora tenha sido de utilização obrigatória (excepto nas encomendas postais) e prioritária sobre as demais fórmulas de franquia no seu curto período de circulação, o assombroso porte adensa ainda mais as reservas sobre a sua autenticidade.

Depois de atenta leitura de uma obra de referência da filatelia portuguesa (1), chego à conclusão que se trata de uma peça genuína embora com cunho filatélico. Ninguém estará em condições para afirmar que entrou ou não no circuito postal (se circulou, foi com porte em excesso) mas poder-se-á afastar com alguma segurança a hipótese de falsa.
Com efeito, das emissões comemorativas com o objectivo de explorar os filatelistas, esta foi a que fez correr mais tinta e afectou a credibilidade da filatelia nacional. Desta vez, para além dos filatelistas, o abuso e a especulação atingiram também os comerciantes filatélicos. São inúmeros e caricatos os episódios envolvendo os correios, concessionários, especuladores privados, políticos, tribunais, banca, imprensa escrita, casa impressora, agremiações filatélicas, marinha portuguesa, os próprios aviadores, etc., etc.

Da parte dos comerciantes, filatelistas e clientes de ocasião, a emissão teve uma grande procura: as requisições feitas nas estações postais somavam 3.142.630 selos. Porém, depois de separadas e acauteladas as 150.000 séries acordadas aos concessionários, à Aviação Marítima e aquelas reservadas para a Secretaria Internacional de Berna, restaram para venda aos balcões apenas 839.570 selos, sendo necessário proceder a um rateio. 
Eis as quantidades de cada taxa fornecidas pela Casa da Moeda às estações postais:

 
Face às quantidades díspares entre as diversas taxas, a leitura é muito simples: por exemplo, em Lisboa, cidade onde foi obliterada a peça, só foi possível dar satisfação a parte das requisições, pois só se puderam confeccionar 400 colecções.
As reduzidas quantidades das taxas de $30 e 1$50 deixaram muitos filatelistas e outros interessados com séries incompletas. Tudo indica que esse tenha sido o caso do responsável pela feitura da peça em apreço. Não sei se circulou efectivamente no circuito postal, mas a marca é genuína e teria sido batida nessa data.

Os episódios insólitos não se ficaram por aqui. A Portaria n° 4152, de 31 de Julho de 1924, viria a permitir que algumas taxas das sobras pertencentes aos correios pudessem circular de novo, nos dias 6, 7 e 8 de Setembro desse ano, aniversário da independência do Brasil. Findo este período, as sobras foram destruídas por queima.

 
Para além dos danos à credibilidade da filatelia portuguesa, os investidores e o Estado também foram fortemente penalizados pela ambição do lucro fácil. Sem qualquer risco e esforço, o beneficiado foi a Aviação Marítima, que recebeu uma verba avultada assim como 123.000 colecções, acabando estas por serem introduzidas no comércio filatélico.

CE 274
(bloco de 20 selos)

É provável que muitas das séries completas ou incompletas vendidas pelos correios não tenham circulado, sendo conservadas e guardadas em álbuns. Que quantidade de séries e valores avulso chegaram até nós devidamente obliteradas nesse primeiro período de circulação? Não muitos, e sobre suporte circulado ainda menos!

As más experiências com as emissões comemorativas especulativas não serviram de lição para os correios: no ano seguinte, seria emitida a de Luís de Camões, em 1925 a de Camilo Castelo Branco e em 1926, 1927 e 1928 as três emissões alusivas à Independência de Portugal.




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